Marcadores

domingo, julho 11, 2010

Um dia de azar_A maldição do sofá


Havia uma semana que eu estava esperando um filme inédito no meu canal favorito. Mas o bendito filme não apareceu. A minha alegria se desmanchou, pro espelho olhei e obtive a confirmação: eu estava com raiva! Levantei do sofá cor de cereja e fui desligar a TV: bati o dedo do pé mindinho bem no banco, perto do sofá. Berrei o mais alto que pude, pelo menos tive a idéia do que eu iria enfrentar em meu primeiro dia de folga depois de dois anos trabalhando.
Decidi dormir. Nada melhor que fechar os olhos e deitar em minha cama confortável. Bom, pelo menos tentei. O meu vizinho roqueiro, alucinado adolescente tocava, ou melhor, fazia aquele barulho que tremia as minhas janelas de vidro. Odiei aquele pivete com aquela música barulhenta sem sentido algum, odiei aquela sua guitarra, seria capaz de fazer ele a engolir e ainda sem reclamar! Fiz questão de ir à casa de dona Agustina e reclamar de seu filho. Tinha gente querendo dormir. Fui a sua casa, me atendeu gentilmente, fiz minha reclamação e ainda levei um sermão: “Isso é horas de dormir? O meu filho precisa ensaiar pro seu show!” Ela não devia ter falado isso. Tive a impressão de me transformar em uma panela de pressão ao ponto de explodir. Então também reclamei, falei de seu filho, falei de seu marido, do cachorro que chora toda noite, daqueles passarinhos barulhentos e da TV no último volume. Fui expulsa de sua casa, mas a barulheira parou.
Voltei na minha casa, fiz água com açúcar e tomei tremendo, o dia não estava no dos melhores. Fui para o banheiro tomar banho para esfriar a cabeça, porém só teve motivo para esquentar ainda mais. A água ficou congelada quando estava terminando o banho! Eu tive que tirar a espuma no gelo mesmo. Me empacotei de roupa porque é inverno, não queria pelo menos pegar uma gripe. Nessa hora meu celular toca e achei melhor atender. “Alô!” Ouvi uma mulher berrando, acho que aquilo foi um choro. ”Amiga, eu preciso tanto de sua ajuda!” Voltou a chorar, não era única que estava sofrendo. ”Mas tem que ser hoje?” Eu estava ríspida o bastante de não me emocionar com nada naquele momento. ”Ai, obrigada amiga, dentro de meia hora eu chego aí” E desligou. Não tive nenhuma reação, nenhuma emoção, ou qualquer tipo de coisa parecida. Eu só estava com raiva.
Vinte minutos depois a campainha é tocada e respirei fundo,a convidei a entrar. Eu tinha que me controlar. “Amiga! Você não sabe o que aconteceu, Fabrício terminou comigo!” Respirei novamente mais fundo e deitei no meu sofá que me deu azar dês do começo do dia. Não conseguia prestar atenção no que falava. Eu não queria. Um “aham”, “é verdade”, ”concerteza” era o suficiente. Por um momento imaginei pegando uma panela de pressão e a amassando em sua cabeça, ou talvez enfiando seu crânio dentro da TV. Vontade não faltou. Estava viajando com a minha imaginação terrorista, quando minha amiga me chama, transformando a imagem em fumaça: “o que você acha?”. Ouvi os grilos, olhei para o relógio. Eram 8h, e nem tinha notado, a maldição do sofá já estava prestes a acabar. “Eu acho legal.” Estava com medo de minha resposta “Então eu devo ir?” “Acho que sim.” Seus olhos começaram a lacrimejar. ”Mas ele me traiu!” A ficha caiu na hora, a panela de pressão voltou a funcionar. ”Quer voltar com ele sendo que ele... te traiu?”Eu estava com raiva, e o aceno em sua cabeça me fez enlouquecer. Literalmente. Comecei a falar, ou estava gritando? Não importa. Falei o quanto era tonta e incapacitada de se auto-valorizar. Falei de seu namorado galinha, falei de sua infantilidade, de minha intolerância, de minha raiva, da minha panela de pressão e do maldito sofá. Falei que deveria estar dormindo nessa hora ao invés de ficar ouvindo suas inúteis lamentações e falei especialmente do tanto de gente que está passando fome enquanto ela chora pelo imprestável de seu namorado. Acabei de passar minha lista de broncas e fiquei com muito medo de sua reação. Ela olhou pra mim, pro chão, pra mim, pro chão, pro sofá... E me agradeceu sorrindo, depois partiu. Eu tinha ajudado? Não soube, mas pelo menos alguém estava feliz.
Olhei para meu relógio: 11h. Não pensei em mais nada a não ser em minha cama. Fui para meu quarto apaguei as luzes e deitei. Minhas únicas palavras foram:” Ainda bem que acabou minha folga, não vejo a hora de poder trabalhar amanhã”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário